"O Canto"
Dentre tudo que eu tinha, pouco a pouco se enterrando
A não mais restar eu vinha, era nada, se isolando
Eu passei um tempo triste, passei um tempo chorando
E agora, já sem lagrimas, me atenho a um novo plano
Me envolvi num mundo escuro, infinito era seu manto
Lá foi onde me mantive, quase sempre, procurando
Pensando em meio às sombras, sombras essas, meus enganos
Se resposta esperava, não me vinha, e não chegando
Abandonaria o mundo, não presente um claro canto
Falar algo no escuro, sem limite, escuro a tanto
Ao que voz se fez ser alta, alta e minha, entretanto
Canto em um canto perdido, no infinito havia um canto
E tal era a sempre dúvida, dúvidas multiplicando
Que no breu do desespero, corro e grito, tateando
A procura de um abrigo, a procura desse canto
Canto ora, que estranho, no infinito, achei um canto
Não recordo o que sentia; fúria, medo, sonho, espanto
Por mais que ali procurasse, nada havia, só um canto
Contra o nada e frente ao canto eu somente, implorando:
“Rogo a tudo, rogo ao todo, dê-me agora, e suplicando
Tudo aquilo que procuro, venho a muito procurando
Essa dor não se dissipa, onde passo e onde ando
Já não vejo, já não falo, mas com vida, por enquanto
Mas ser assim já não posso, sinto-me desmoronando
Canto, dá-me voz de novo, pois a muito já não canto...”
E só então mesmas palavras, de repente, vão voltando
Como que de cara a um muro, batendo de fronte ao canto
Tomei dele as palavras minhas, que somente imitando
Nada respondia a mim, só um eco, me ecoando
Esperava já ser salvo, mas silêncio no recanto
Sobre a voz que vem do escuro, revelar-se-á no manto
É do silencio que parte, finalmente fala o canto:
“Que procuras, obtuso, perante a apenas um canto?
Sabes tu alguma coisa, ou só lhe sobra este pranto?
Se não tens mais aonde ir, não a mim reserve tanto
Pois lhe sou barreira agora, pois não vê além e a mando
Tua alma já não pode, vejo em teus olhos, minguando
Forças pra seguir não tens, só te resta ir voltando
Precisas ver de outro modo, baixa o medo e acalmando
No que podes ter de mim, te impulsiono, te alavanco
Mas encara logo o mundo, que comeces deste ponto
Vira-te logo pra tudo, te prepara, e ao confronto!”
Tendo o canto dito assim, dou-lhe as costas e levanto
Diante de mim o caminho, pelo qual vim me negando
Numa fuga a mais sem fim, com que fim não me importando
Vendo agora que fugia, agora e a tempo, tempo enquanto
Ao mudar de posição, algo em mim se foi criando
Enfrentar tudo eu devia, tudo agora, agora a tanto
Meu caminho não errado, apenas fora do plano
Peças muitas deveria, pelo caminho ir juntando
Peças tais, que falta tinha, encontrando e alinhando
Refazer-me eu devia, tudo agora re-encaixando
Me ajustar eu só queria, mas só peças derrubando
Só ao nada eu tenderia, não fosse presente o canto
Em achá-lo por engano, foi ser salvo, me salvando
Já não mais tenho receio, hoje sei que aquele canto
Era meio eu, perdido, dividido e se calando
Algo a mim me foi um dia, foi-se um dia revelando
Ora muito mais que um guia, ora muito mais que um canto
Guardo fundo e forte ao peito, e a canção vai ressoando
“A vida, longe de simples, vai querer ir complicando
Pode ser que seja muito, mais siga sempre cantando
Por aqueles que passar, leve sempre algum encanto
Musicar em tom suave é entoar conforme o canto...”
Palavras tais na memória, e outras tantas, vou guardando
Por inteiro agora vivo, peças novas vou mirando
Segunda chance foi dada, meu jardim hoje replanto
Mais do que respostas todas, amigo me foi o canto
Sei agora onde ele fica, e voltarei, se precisando
Meu coração manda agora, sigo o sangue me guiando
Dentro de mim reconstruo a casa que tanto amo
Ser mais do sempre julgo, julgo a mim, reformulando
Ser tudo qual tudo em mim, juro agora, estar buscando
O tempo me será digno, digo agora, e vou mudando
Um dia terei de volta as coisas que fui soltando
Recomeço desse ponto, antes tarde, recomeçando
Minha mente já mais livre, livre já se vai meu canto
Novo olhar se fez preciso, fez-se nova a voz falando
Tenho agora o que é preciso, e os sorrisos vem brilhando
E a cada novo dia, todo dia, agora canto...